Vivendo o próprio luto


Sim, você não leu errado o título desta postagem. Hoje vou abordar um tema ainda mais complexo do que o luto vivido pelos pais de crianças com diagnóstico de autismo, irei falar do próprio luto da descoberta de autismo. Esse tema veio como um insight a exatos cinco minutos (30/03/18, 20h21), simplesmente como um anseio de mostrar as pessoas, especialmente aos meus amigos, familiares e colegas, a dura batalha que estou travando comigo mesma.
Durante 29 anos em minha vida eu me dediquei a desenvolver as habilidades necessárias que me permitissem viver em sociedade, ser aceita nos grupos sociais tais como escola e trabalho, e ter o amor das pessoas ao meu redor. Esse foi basicamente meu norte por toda minha existência: fazer o que agradavam aos outros na espera de receber afeto.
Mas em 2017, após me descobrir autista, todas estas "verdades" começaram a ser questionadas, porque a vida estava difícil demais, pesada demais para mim. Mudar para a Capital do Estado, aumento da demanda no trabalho, me dedicar ao tratamento do meu filho, e ainda lidar com meus monstros se tornou humanamente impossível, se eu continuasse a viver sob esta ótica.
Gosto de comparar minha vida ao de uma borboleta azul: azul pelo autismo e borboleta pela metamorfose. Vivi 29 anos como lagarta, rastejando pelo chão, acreditando que aquilo seria meu destino eterno, vivendo para agradar a todos a fim de receber migalhas de afeto.
Em 2017, de forma inesperada e terrivelmente fantástica entrei no meu casulo, lá era apertado e escuro, meu corpo (leia-se emoções e sentimentos) começou abrupta e rapidamente a se transformar, o medo me anestesiava e me consumia ao mesmo tempo. Eu não sabia definir se eu estava morrendo, melhorando ou simplesmente ficando inútil.
Todo aquele mundo rastejante não fazia mais sentido de dentro daquele casulo. Haviam dias que doía muito, apertava mesmo, a ponto de eu pensar que sucumbiria, mas ironicamente, haviam outros dias em que me sentia deveras alegre e eufórica, apenas por saber que não precisaria mais rastejar. Mesmo que eu tivesse que terminar os restos de meu dia enclausurada, ao menos ali, em meu particular e solitário mundo eu não precisava mais da aprovação de ninguém, nem de me adequar a parâmetros aos quais eu jamais entendera.
Foi um tempo de solidão, ressignificação e resignação. Palavras difíceis para dizer que foi um tempo de dar novo significado a tudo que conhecera e simplesmente aceitar tudo aquilo como algo que não podia ser mudado mas apenas vivenciado. E 2018, o ano dos meus 30 anos, iniciou com o rompimento do casulo e a libertação de uma linda borboleta azul: a certeza de ser autista.
Foi impactante, que de repente, ou melhor, não tão de repente assim, aquela estranha lagarta desajeitada e perdida, que se enclausurara dentro de um casulo estranho e até certo ponto repugnante para quem olhava de fora, romper a barreira de PREconceitos e padrões doentios e se mostrar como sempre foi por dentro de seu ser, uma criatura linda, exuberante, de cores vibrantes e hipnotizantes, um corpo frágil e esguio com duas asas enormes, leves e ágeis, capaz de transportá-la pelos diversos mundos, do chão ao céu, com uma liberdade rara e cara demais para desta vez dar ouvidos a cobranças, preconceitos, julgamentos, padrões ou qualquer outro ser que ainda teimasse em querer convencê-la de que ela não era aquela exuberante borboleta e sim uma lagarta e que deveria voltar a rastejar-se. O diagnóstico de autismo me libertou LITERALMENTE.
Usei esta metáfora para que você, leitor, pudesse experimentar ao menos um pouco da dolorosa e gratificante metamorfose pela qual passei. Mas, em mim, tudo foi muito real, a dor foi real, a perda foi real, a libertação de padrões doentios foi real e o luto é real.
Porque embora agora eu seja uma borboleta azul, eu passei toda uma vida sendo lagarta, e agora eu não sou mais, a lagarta se transformou, aquela figura morreu, logo, eu também morri. Me desfazer de todos conceitos e padrões impostos a mim enquanto ainda era uma lagarta é um processo ainda em curso. Descobri as belezas e os perigos de ser um novo ser, uma borboleta, também é um processo ainda em curso.
No entanto, aceitar que sou uma borboleta é algo já superado, e foi muito mais fácil de lidar do que com as cobranças dos outros para que eu voltasse a ser uma lagarta. É mais fácil e cômodo manipular e condicionar uma lagarta rastejante do que uma livre borboleta.
E em meio a isto, há o processo de luto, de aprender que jamais atingirei os padrões que a sociedade e as pessoas esperam de mim, que seguirei um voo lindo e solo, que não me adequarei a relacionamentos, que minhas amizades serão diferentes, que a minha sinceridade poderá assustar e às vezes até confundir, enfim, é um luto, com todas as suas perdas!
Ainda estou alçando meus primeiros voos, aprendendo a tocar a flores, a sentir seu néctar, a disseminar os polens, estou aprendendo a lidar com as rajadas de ventos e com os temporais, mas também estou curtindo cada amanhecer, cada raio de sol, cada luar estrelado, permitindo-me sentir a brisa suave nas asas e o perfume das flores.
Tudo aqui de fora, aqui de cima é mais lindo, é mais vivo, é mágico. Ser eu mesma e fazer as coisas que fazem bem ao meu ser é uma dádiva da qual sou grata todos os dias a Deus. Aceitar que me transformei e que não mais serei a mesma é maravilhosamente assustador. E por estar vivendo meu próprio luto, às vezes eu me recolho em um galho e fico ali só contemplando a transformação, assimilando o novo e me despedindo do velho.
Pela primeira vez na vida me sinto alguém no mundo, sinto que tenho um lugar no mundo e sei no que devo contribuir neste mundo. É justamente por esta intrigante e espetacular realidade que repito:
LINDO DIA PRA VOAR ʚiɞ

Um simples aperto de mão! Simples?


Para as pessoas "normais" (sem autismo) saber o momento de cumprimentar alguém e a forma adequada de fazê-lo é algo tão simples que chega a ser algo automático. No entanto, para nós autistas, este simples ato é algo complexo e confuso, demasiadamente confuso.
Por não saber como iniciar contato com as pessoas, e devido ao bullying que sofri durante toda a vida escolar, eu preferia evitar as pessoas, a todo custo, inclusive me escondendo em meu quarto, se necessário. Ao longo dos anos desenvolvi a ideia de que não gostava das pessoas, o que era um meio para evitar ter contato e consequentemente ser ferida por ser diferente, estranha.
Mas, os autistas também crescem, e na vida adulta, principalmente no trabalho é necessário lidar com pessoas. Meu QI (Quociente de Inteligência) sempre me ajudou em tudo, mas aí surgiu algo que eu desconhecia, o QE (Quociente Emocional), era preciso lidar com as pessoas. E assim, há quinze anos venho me aventurando nesse mundo de gente, e que doloroso foi tudo isto. A cada nova ferida, eu me trancava em mim, e reforçava a ideia de não gostar das pessoas.
Só que há um paradigma: o autista ama as pessoas e quer socializar! Isto mesmo, todos pensam que por não conseguir socializar e acabar se isolando, o autista não goste das pessoas. Grande engano. Outro erro gigantesco é acreditar que não sentimos, muito ao contrário, somos extremamente sensíveis. E estes sentimentos me levaram de volta a me aventurar pelo mundo "normal". Até que, me tornei Oficiala de Justiça, e tive que lidar diariamente com dezenas de pessoas.
No início, embora aparentasse externamente muita calma e tranquilidade, tudo era caótico dentro de mim. E aos poucos, meu raciocínio lógico, apurado com o tempo, começou a "ler os sinais das pessoas". Eu me questionava: quando devo cumprimentar apertando a mão e quando cumprimentar apenas verbalmente? Com muita leitura sobre comportamento e exaustiva observação das pessoas se cumprimentando em todos os locais em que ia, desenvolvi métodos próprios para identificar quando e como apertar a mão do outro.
Logo que vejo a pessoa, inicia-se uma exaustiva e cansativa análise se devo ou não apertar sua mão, culminando pelo gesto feito da pessoa de levantar o braço de junto ao corpo para cumprimentar, assim em velocidade incrível, algo em meu cérebro me envia o comando para estender a mão e cumprimentar. São tantos sinais lidos, que não consigo numerar todos, mas entre eles há uma espécie de vácuo no espaço entre mim e a pessoa, além do seu olhar sinalizar também se irá ou não estender a mão. Claro, que por ser sinais sutis e em velocidades extremamente rápidas, às vezes há erro de leitura, mas esta foi a melhor técnica que consegui desenvolver, diminuindo o constrangimento e os erros de cumprimento.
E o que era para ser um simples aperto de mão, no meu caso, torna-se um esforço diário e continuo, extremamente exaustivo, mas que me faz pertencer de forma mais adequada ao ambiente social, em especial, ao ambiente profissional.
Use um pouco de imaginação e empatia, e imagine que toda vez no dia que eu encontro alguém com o qual deva estabelecer contato, este mecanismo ativa-se, pode ser apenas uma vez ao dia, mas podem ser trinta vezes ou mais. Este é um dos motivos pelo qual eu prefiro contato por meio escrito, e não me alegro em ir a eventos com muitas pessoas.
E era pra ser apenas um.... SIMPLES APERTO DE MÃO.
Até a próxima,
Beijos azuis 😘