domingo, 4 de março de 2018

# Autismo # Mecanismos

Um simples aperto de mão! Simples?



Para as pessoas "normais" (sem autismo) saber o momento de cumprimentar alguém e a forma adequada de fazê-lo é algo tão simples que chega a ser algo automático. No entanto, para nós autistas, este simples ato é algo complexo e confuso, demasiadamente confuso.
Por não saber como iniciar contato com as pessoas, e devido ao bullying que sofri durante toda a vida escolar, eu preferia evitar as pessoas, a todo custo, inclusive me escondendo em meu quarto, se necessário. Ao longo dos anos desenvolvi a ideia de que não gostava das pessoas, o que era um meio para evitar ter contato e consequentemente ser ferida por ser diferente, estranha.
Mas, os autistas também crescem, e na vida adulta, principalmente no trabalho é necessário lidar com pessoas. Meu QI (Quociente de Inteligência) sempre me ajudou em tudo, mas aí surgiu algo que eu desconhecia, o QE (Quociente Emocional), era preciso lidar com as pessoas. E assim, há quinze anos venho me aventurando nesse mundo de gente, e que doloroso foi tudo isto. A cada nova ferida, eu me trancava em mim, e reforçava a ideia de não gostar das pessoas.
Só que há um paradigma: o autista ama as pessoas e quer socializar! Isto mesmo, todos pensam que por não conseguir socializar e acabar se isolando, o autista não goste das pessoas. Grande engano. Outro erro gigantesco é acreditar que não sentimos, muito ao contrário, somos extremamente sensíveis. E estes sentimentos me levaram de volta a me aventurar pelo mundo "normal". Até que, me tornei Oficiala de Justiça, e tive que lidar diariamente com dezenas de pessoas.
No início, embora aparentasse externamente muita calma e tranquilidade, tudo era caótico dentro de mim. E aos poucos, meu raciocínio lógico, apurado com o tempo, começou a "ler os sinais das pessoas". Eu me questionava: quando devo cumprimentar apertando a mão e quando cumprimentar apenas verbalmente? Com muita leitura sobre comportamento e exaustiva observação das pessoas se cumprimentando em todos os locais em que ia, desenvolvi métodos próprios para identificar quando e como apertar a mão do outro.
Logo que vejo a pessoa, inicia-se uma exaustiva e cansativa análise se devo ou não apertar sua mão, culminando pelo gesto feito da pessoa de levantar o braço de junto ao corpo para cumprimentar, assim em velocidade incrível, algo em meu cérebro me envia o comando para estender a mão e cumprimentar. São tantos sinais lidos, que não consigo numerar todos, mas entre eles há uma espécie de vácuo no espaço entre mim e a pessoa, além do seu olhar sinalizar também se irá ou não estender a mão. Claro, que por ser sinais sutis e em velocidades extremamente rápidas, às vezes há erro de leitura, mas esta foi a melhor técnica que consegui desenvolver, diminuindo o constrangimento e os erros de cumprimento.
E o que era para ser um simples aperto de mão, no meu caso, torna-se um esforço diário e continuo, extremamente exaustivo, mas que me faz pertencer de forma mais adequada ao ambiente social, em especial, ao ambiente profissional.
Use um pouco de imaginação e empatia, e imagine que toda vez no dia que eu encontro alguém com o qual deva estabelecer contato, este mecanismo ativa-se, pode ser apenas uma vez ao dia, mas podem ser trinta vezes ou mais. Este é um dos motivos pelo qual eu prefiro contato por meio escrito, e não me alegro em ir a eventos com muitas pessoas.
E era pra ser apenas um.... SIMPLES APERTO DE MÃO.
Até a próxima,
Beijos azuis 😘

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